Odisseia e Quarto Caminho, Parte 2

Este texto contém spoilers da Odisseia.

Na primeira parte desta série, propus uma hipótese de leitura: a jornada de Odisseu não é apenas o caminho que leva um herói de volta para casa. É também o processo pelo qual algumas de suas qualidades começam a operar de maneira mais integrada.

Inteligência, vontade, contenção, discernimento e responsabilidade não formam desde o início um mestre acabado. A jornada cria condições para que essas qualidades coalesçam.

Coalescência, aqui, não significa perfeição. Significa que capacidades antes dispersas passam a cooperar de modo relativamente estável, sem deixarem de ser distintas.

A jornada forma o mestre. O retorno coloca essa formação à prova.

Mas existe um problema.

Enquanto Odisseu atravessava mares, monstros, guerras, paixões e perdas, Ítaca não ficou congelada esperando por ele.

A casa continuou vivendo.

E uma casa sem mestre não permanece vazia por muito tempo.

A casa continuou funcionando

Essa talvez seja uma das imagens mais poderosas da Odisseia.

Odisseu desaparece durante vinte anos: dez deles são consumidos pela Guerra de Troia. Nos outros dez, ele tenta voltar.

Enquanto isso, Penélope permanece em Ítaca. Telêmaco cresce. Os animais continuam sendo cuidados. Servos trabalham. Pessoas comem, bebem, negociam, esperam. A vida segue.

Só que começa a se reorganizar em torno da ausência.

Os pretendentes passam a frequentar o palácio, consumir seus recursos, pressionar Penélope e disputar aquilo que Odisseu deixou para trás. Uma situação originalmente provisória, “Odisseu ainda não voltou”, aproxima-se lentamente de uma nova ordem: “Odisseu não voltará”.

E depois:

“Precisamos decidir quem ocupará seu lugar.”

A ausência do mestre não produz simplesmente um vazio. Produz um campo novo.

Uso aqui a palavra campo em sentido simples: o conjunto de relações, posições, expectativas, restrições e possibilidades que modifica o que cada participante consegue perceber e fazer.

Odisseu não precisa assistir à transformação de Ítaca para que sua ausência seja causalmente real. Penélope precisa criar estratégias para adiar um casamento. Telêmaco cresce cercado por homens que consomem sua herança e discutem sua eliminação. Eumeu continua cuidando do que lhe foi confiado. Laertes se retira. Argos envelhece.

A casa responde à ausência.

Os muitos eus

É aqui que a Odisseia encontra uma das imagens mais conhecidas do Quarto Caminho.

Na tradição associada a Gurdjieff e desenvolvida por Ouspensky, o ser humano comum não é descrito como uma unidade psicológica perfeitamente estável. Diferentes estados, desejos, medos, impulsos e intenções aparecem em momentos distintos e dizem, cada um deles:

“Eu.”

O eu que promete começar uma dieta na segunda-feira não é exatamente o mesmo estado que abre a geladeira à meia-noite. O eu que decide nunca mais responder impulsivamente pode desaparecer quando chega uma mensagem que o irrita. O eu que promete guardar um segredo talvez não esteja presente quando, dias depois, surge uma ótima oportunidade para contar a história.

A expressão muitos eus serve para nomear essa multiplicidade de vontades, estados e narrativas parciais que se alternam no comando.

Não significa que existam literalmente várias pessoas dentro da cabeça. Significa que aquilo que chamamos de “eu” contém forças que nem sempre conhecem, lembram ou respeitam os compromissos umas das outras.

A imagem tradicional é a de uma casa cheia de empregados sem um administrador suficientemente estável. Cada um aparece, utiliza os recursos disponíveis e tenta realizar aquilo que considera importante naquele momento.

Ítaca torna essa imagem quase concreta.

Há uma casa. Há recursos. Há memória. Há funções diferentes. Há uma história compartilhada.

Mas o centro de governo está ausente.

E várias forças começam a reivindicá-lo.

Os pretendentes não construíram a casa

Esse detalhe me parece fundamental.

Os pretendentes não constroem uma nova Ítaca. Eles ocupam uma estrutura que já existia.

Não produziram os rebanhos que consomem. Não construíram o palácio. Não criaram os vínculos que sustentam aquela família. Não participaram da história que tornou aquela casa possível.

Mesmo assim, passam a comportar-se como se o acesso prolongado aos recursos lhes concedesse legitimidade.

Algo semelhante pode acontecer dentro de nós.

Uma raiva pode utilizar nossa memória, nossa inteligência, nossa linguagem, nossa energia corporal e nossas relações para realizar uma ação que, algumas horas depois, outra parte de nós terá de reparar.

Um medo pode mobilizar toda a capacidade intelectual disponível para provar que fugir é a única alternativa racional.

Uma necessidade de reconhecimento pode sequestrar anos de experiência e competência para produzir uma decisão que serve, acima de tudo, à própria necessidade de ser reconhecido.

Essas forças não são necessariamente malignas.

A raiva pode proteger. O medo pode antecipar ameaça. O desejo mobiliza. A necessidade de pertencimento aproxima. A ambição pode construir.

Pluralidade não é a doença.

O problema começa quando uma função parcial deixa de participar da casa e passa a reivindicar o direito de representá-la inteira.

Nem todo pequeno eu é um pretendente

Essa distinção precisa ser preservada.

Nem todo desejo é pretendente. Nem todo medo é pretendente. Nem toda raiva é pretendente. Nem todo pequeno eu precisa ser combatido.

Uma casa precisa de muitas funções. Precisa de quem cuide, de quem perceba perigo, de quem preserve memória, de quem explore possibilidades, de quem imponha limites, de quem execute e de quem mantenha vínculos.

O problema não é haver muitas vozes.

O problema começa quando uma delas diz:

“Porque estou no centro agora, sou a totalidade.”

Uma parte começa a comportar-se como pretendente quando reivindica o centro, fala em nome do todo, consome recursos sem reciprocidade, rejeita limites e tenta impedir que outro princípio de governo volte a ocupar aquele lugar.

A mudança pode ser quase invisível.

Um desejo deixa de dizer “eu quero isto” e passa a dizer “isto é o que nós queremos”.

O medo deixa de dizer “estou com medo” e passa a declarar “isto é perigoso”.

A vaidade deixa de reconhecer “quero ser visto” e conclui “esta é objetivamente a melhor decisão”.

A parte desaparece atrás da linguagem da totalidade.

Talvez essa seja uma das formas mais comuns de captura.

Antínoo e Eurímaco: quando alguns eus organizam os outros

Entre os pretendentes, Antínoo e Eurímaco assumem importância especial.

Na leitura que proponho, eles podem ser aproximados de outra ideia do Quarto Caminho: o chief feature, ou traço principal.

Não o entendo aqui como um “defeito secreto” escondido na personalidade. Uso a expressão para descrever um padrão relativamente estável capaz de organizar vários pequenos eus, interpretações e comportamentos ao redor de si.

Há muitos pretendentes, mas alguns funcionam como atratores.

Antínoo representa a forma mais direta da captura. Quando Telêmaco ameaça a permanência dos pretendentes, sua resposta é eliminar a ameaça. Se o herdeiro coloca o regime em risco, o herdeiro precisa desaparecer.

Eurímaco opera de modo mais sofisticado. Participa do mesmo campo de usurpação, mas também tranquiliza, racionaliza, adapta o discurso e oferece explicações capazes de fazer aquela ordem parecer razoável.

Antínoo ameaça.

Eurímaco explica.

Um utiliza força. O outro ajuda a produzir legitimidade.

Por isso, uma formulação me parece especialmente útil:

Antínoo executa aquilo que Eurímaco torna justificável.

Psicologicamente, essa combinação é poderosa. Impulsos raramente governam durante muito tempo sem desenvolver um sistema de explicações.

Primeiro fazemos.

Depois nossa inteligência começa a demonstrar por que aquilo era inevitável, necessário, justo ou até altruísta.

O chief feature se torna difícil de perceber justamente quando deixa de aparecer apenas como comportamento e passa a organizar a própria coerência da pessoa. Seleciona lembranças, favorece interpretações, recruta pequenos eus e cria justificativas.

Depois de algum tempo, aquilo que começou como estratégia passa a parecer simplesmente:

“Quem eu sou.”

Então o mestre volta

E aqui Homero realiza algo extraordinário.

Odisseu finalmente chega a Ítaca.

Mas não entra no palácio anunciando:

“O rei voltou.”

Atena altera sua aparência, e ele entra em sua própria terra como um velho mendigo.

Narrativamente, o disfarce é uma estratégia. Simbolicamente, ele faz algo ainda mais interessante.

Existe um problema inevitável quando falamos de “Eu Real”, “mestre interior”, “consciência superior” ou qualquer linguagem semelhante.

Um pequeno eu grandioso também pode anunciar que é o mestre.

Talvez nenhum pequeno eu seja mais perigoso do que aquele que diz:

“Finalmente despertei.”

Ou:

“Agora vejo tudo claramente.”

Ou ainda:

“Este é meu verdadeiro eu.”

Se Odisseu simplesmente entrasse proclamando sua identidade, teríamos apenas uma afirmação.

O disfarce suspende essa possibilidade.

Antes de governar, o mestre precisa observar.

A vantagem epistemológica do mendigo

O poder modifica o campo.

Pessoas ajustam palavras, postura, coragem, opinião e demonstrações de fidelidade quando sabem que alguém pode recompensá-las ou puni-las.

O mendigo produz muito menos dessa deformação.

Diante dele, quase nada parece estar em jogo.

É exatamente por isso que as pessoas revelam tanto.

Antínoo não vê um rei quando Odisseu entra no palácio. Vê alguém sem importância. Insulta o estrangeiro e o agride. Outros personagens reagem de maneira diferente.

Odisseu começa a descobrir não quem afirma ser fiel a Odisseu, mas como cada pessoa age quando acredita que Odisseu nunca mais voltará.

Essa diferença é enorme.

Ela permite separar lealdade a um princípio de obediência ao poder.

A pergunta deixa de ser “Quem diz que é fiel ao mestre?” e passa a ser:

“Como essa pessoa age quando acredita que o mestre não está olhando?”

O disfarce se torna, assim, uma espécie de protocolo epistemológico. Ele reduz a deformação provocada pela autoridade e permite observar uma versão da casa que talvez jamais aparecesse diante do rei já coroado.

Mas Odisseu também está sendo testado

Seria simples demais imaginar o mendigo como um juiz exterior observando seus réus.

Odisseu também precisa suportar o teste.

Antínoo o humilha. Outros o provocam. Sua força é desconhecida. Sua história não lhe concede prestígio. Seu nome não produz autoridade.

Ele poderia responder antes.

Mas contém a resposta.

Essa contenção se torna particularmente significativa quando lembramos de outro Odisseu.

Depois de escapar do Ciclope, no poema, ele não consegue simplesmente partir. Apesar dos pedidos dos companheiros, revela seu nome. A vitória anônima não basta. O acontecimento precisa carregar sua assinatura.

Ao declarar quem é, permite que Polifemo saiba exatamente quem o derrotou e invoque Poseidon contra ele.

Não precisamos reduzir a cena à palavra “orgulho”. Ela mostra algo mais específico: uma dificuldade de aceitar uma vitória que não seja reconhecida como sua.

Na adaptação de Christopher Nolan, essa passagem é diferente. O famoso jogo com o nome “Ninguém” e a revelação posterior da identidade não aparecem da mesma forma. O traço impulsivo é preservado por outro gesto, quando Odisseu volta a atacar o Ciclope durante a fuga. Portanto, a tensão entre anonimato e necessidade de reconhecimento é muito mais explícita no poema do que na adaptação cinematográfica.

É justamente esse contraste que torna o mendigo de Ítaca tão poderoso.

O homem que precisou anunciar seu nome ao Ciclope agora consegue permanecer, por algum tempo, numa posição em que ninguém sabe quem ele é.

O vencedor que exigia assinatura suporta o anonimato.

Isso não prova que Odisseu tenha se tornado perfeito.

Mostra que uma capacidade antes frágil parece agora disponível.

Entre perceber e reagir, surge espaço.

E nesse espaço pode surgir discernimento.

Antes do julgamento vem o discernimento

Odisseu atravessou fascinação, medo, orgulho, prazer, desespero, perda, necessidade de reconhecimento, vontade de permanecer, vontade de fugir, dependência e solidão.

A jornada o colocou em contato com forças que, em outras formas, agora encontra dentro de sua própria casa.

Mas sofrimento não garante sabedoria.

Uma pessoa pode sofrer por décadas e apenas se tornar mais rígida.

O que parece diferente no retorno de Odisseu é a combinação entre experiência e uma capacidade crescente de observar, esperar, comparar, ouvir, conter a reação e escolher o momento.

É nesse sentido limitado que podemos aproximá-lo da ideia de Consciência Objetiva.

Não uso o termo como sinônimo de acesso a uma verdade absoluta. Aqui ele significa algo mais modesto e operacional: a capacidade de perceber relações, contradições e consequências para além do interesse imediato da parte que ocupa o centro.

Um pequeno eu pergunta:

“O que eu quero fazer agora?”

Uma percepção mais ampla acrescenta:

“O que acontecerá com a casa se eu fizer isso?”

Uma parte diz:

“Ele me ofendeu.”

A percepção ampliada pergunta:

“Quem é ele, qual é minha posição, por que está fazendo isso e o que minha reação produzirá?”

Uma parte diz:

“Tenho poder para agir.”

A pergunta passa a ser:

“Devo agir agora?”

Talvez uma das diferenças entre impulso e governo esteja justamente aí.

A casa para a qual ele retorna já não existe

Existe ainda outra dificuldade.

Odisseu não pode simplesmente restaurar a Ítaca que deixou vinte anos antes.

Aquela casa não existe mais.

Telêmaco cresceu. Penélope atravessou duas décadas de ausência. Servos fizeram escolhas. Laertes envelheceu. Alianças foram formadas. O próprio Odisseu mudou.

O retorno não é a reposição de uma peça antiga no lugar de onde ela saiu.

É o encontro entre um mestre transformado e uma casa igualmente transformada.

Isso também muda a leitura do trabalho interior.

Depois de anos de terapia, prática espiritual, amadurecimento ou qualquer transformação profunda, talvez imaginemos que um dia “voltaremos para nós mesmos”.

Mas para qual “nós mesmos”?

O corpo mudou. As relações mudaram. Algumas possibilidades morreram. Outras apareceram. Partes antes dominantes perderam força. Outras cresceram.

Integração não é regressar a uma versão original intacta.

É aprender a habitar e governar a casa que existe depois da jornada.

E quem manteve essa casa viva?

Quando o mestre finalmente consegue observar Ítaca, não encontra apenas usurpadores.

Encontra funções muito diferentes.

Penélope manteve aberta a possibilidade do retorno.

Telêmaco cresceu entre a ferida e a responsabilidade.

Eumeu continuou cuidando do território que lhe fora confiado.

Euricleia preservou memória.

Argos guardou um reconhecimento que quase não precisava de palavras.

Atena alterou repetidamente as condições do campo.

Nenhuma dessas funções podia substituir Odisseu.

Mas talvez, sem elas, já não existisse uma Ítaca para a qual retornar.

É para essas funções silenciosas que iremos na próxima parte.

Porque talvez a casa tenha sobrevivido não graças a quem podia governá-la inteira, mas graças a quem continuou mantendo vivo o pedaço que lhe havia sido confiado.

Próxima parte

Quem manteve a casa viva enquanto o mestre não voltava?

O mestre não retorna de espada erguida. Retorna como alguém que não merece atenção. Antes de decidir quem deve permanecer na casa, precisa descobrir o que cada parte faz quando acredita que o mestre não está olhando.

Notas e fontes de apoio

A leitura simbólica apresentada aqui é autoral. Ela não pressupõe que Homero tenha codificado deliberadamente conceitos do Quarto Caminho.

Para os episódios de Ítaca, Antínoo, Eurímaco e o retorno disfarçado de Odisseu, a referência primária utilizada é a Odisseia, especialmente os livros 16 e 17, disponíveis no Perseus Digital Library.

Para a diferença entre o episódio do Ciclope no poema e na adaptação de Christopher Nolan, consulte também análises contemporâneas das alterações feitas pelo filme.