Este texto contém spoilers da Odisseia e da adaptação de Christopher Nolan.

Na parte anterior, perguntamos como alguém pode mudar profundamente e ainda permanecer reconhecível. Odisseu voltou diferente, mas algumas continuidades atravessaram aquilo que mudou. Argos respondeu à sua presença. Euricleia encontrou sua história inscrita no corpo. O arco mostrou uma capacidade ainda disponível. Penélope reconheceu um mundo que os dois haviam construído juntos.

A jornada forma o mestre. O retorno coloca essa formação à prova.

Mas existe um problema anterior ao retorno: para voltar, é preciso continuar a viagem.

E há momentos em que o maior perigo de uma jornada não se apresenta como perigo. Não há monstro, tempestade ou inimigo. Às vezes existe apenas a possibilidade de permanecer num lugar belo, num estado de paz ou mesmo depois de uma experiência que realmente nos libertou de coisas que antes pareciam inevitáveis.

O perigo talvez comece quando essa libertação se transforma numa forma de viver em que já não precisamos confrontar aquilo que ainda não conseguimos integrar.

Esse lugar tem um nome na Odisseia: Ogígia.

Ogígia, a ilha fora do mundo

Ogígia é a ilha remota onde vive Calipso, a ninfa divina que recebe Odisseu depois do naufrágio em que seus últimos companheiros morrem. Homero não descreve um cárcere sombrio. Quando Hermes chega à ilha para transmitir a ordem de Zeus que permitirá a partida de Odisseu, encontra uma caverna cercada por árvores, pássaros, videiras, fontes e campos floridos. O lugar é tão belo que o próprio Hermes se detém para contemplá-lo.

Calipso também não é simplesmente um monstro. Ela salvou Odisseu depois do naufrágio, acolheu-o, alimentou-o e deseja mantê-lo consigo. Oferece algo que Penélope jamais poderia oferecer: permanecer ao lado de uma mulher divina e escapar da velhice e da morte.

Se parássemos a descrição aqui, Ogígia poderia parecer o final perfeito da jornada.

Depois de Troia, dos Ciclopes, dos Lestrigões, de Circe, do mundo dos mortos, das sereias, de Cila e Caríbdis, dos naufrágios e da morte de todos os companheiros, Odisseu finalmente chega a um lugar protegido. Não precisa conquistar mais nada. Uma deusa o deseja. A natureza oferece abundância. Até a mortalidade pode ser suspensa.

Seria possível perguntar, com alguma honestidade:

por que alguém iria embora?

Mas Homero coloca outra imagem dentro desse paraíso.

O homem que chora no paraíso

Quando Hermes chega a Ogígia, não encontra Odisseu descansando entre as fontes nem celebrando a vida ao lado de Calipso.

Encontra-o na praia.

Chorando.

Homero o mostra olhando para o mar, consumido pela saudade do retorno. Odisseu não possui navio, companheiros ou meios para atravessar o mar. Está retido e, quando finalmente recebe a possibilidade de partir, escolhe o retorno mesmo sabendo que ainda poderá sofrer e até perecer no caminho.

Isso importa porque impede que transformemos Ogígia numa alegoria simples de acomodação. O Odisseu de Homero não está em paz demais para continuar. Ele sofre e quer sair.

Mas a ilha ainda nos oferece uma imagem poderosa para pensar outra coisa.

Nossas próprias Ogígias nem sempre começam como prisões. Às vezes começam como libertação.

Quando alguma coisa realmente se abre

Em nossas vidas, depois de um longo período de conflito, existe um tipo de experiência que pode ser profundamente transformador.

Algo que parecia sólido se desfaz. Uma identidade antiga perde sua necessidade. Uma culpa pode deixar de ocupar todo o campo. Papéis que pareciam inevitáveis passam a ser vistos como construções menos rígidas que podem até ser abandonadas. A pessoa percebe que não precisa continuar sendo exatamente aquilo que imaginava ser.

Isso pode surgir com enorme intensidade em experiências de pico, contemplativas, religiosas ou existenciais. Substâncias psicodélicas também podem favorecer experiências descritas em termos de unidade, dissolução temporária das fronteiras do eu, transcendência, significado e abertura. Estudos encontram associações entre experiências desse tipo, flexibilidade psicológica e alguns desfechos terapêuticos positivos, embora a literatura também ressalte limitações importantes e não trate a intensidade da experiência como garantia de transformação duradoura.

Não precisamos desconfiar desse momento apenas porque ele é extraordinário.

A abertura pode ser real.

Pode mostrar, talvez pela primeira vez, que outra organização da vida é possível.

O problema começa depois.

Uma experiência pode abrir uma janela.

A armadilha começa quando tentamos morar dentro dela.

Quando uma abertura vira um lugar

Primeiro aparece uma descoberta:

“Eu não preciso continuar vivendo dessa maneira.”

Depois, talvez:

“Então este estado que encontrei é a maneira correta de viver.”

E mais tarde:

“Se o mundo me faz perder esse estado, talvez o problema esteja no mundo.”

Aquilo que inicialmente dissolveu uma estrutura rígida começa a organizar uma nova estrutura ao redor de si. A experiência que libertou passa a ser aquilo que precisa ser protegido.

A pessoa começa a organizar a vida ao redor das condições que tornam aquele estado mais acessível. Ambientes, relações e pessoas capazes de sustentá-lo ganham importância.

Isso não é necessariamente ruim. Experiências profundas podem exigir integração, e relações ou comunidades podem ajudar nesse processo. Na literatura sobre integração psicodélica, integração não significa simplesmente conservar a intensidade da experiência, mas trabalhar seus conteúdos e incorporá-los gradualmente à vida, às relações e ao comportamento.

Mas existe um ponto em que o movimento pode se inverter.

Primeiro, a experiência amplia nossa relação com o mundo.

Depois, começamos a reduzir nosso mundo para preservar a experiência.

É aí que uma abertura pode produzir uma ilha.

Do lótus a Calipso

A adaptação de Christopher Nolan faz uma alteração particularmente interessante justamente aqui.

No poema, os Lotófagos e Calipso pertencem a episódios diferentes. O lótus faz os homens perderem o desejo de retornar. Em Ogígia, ao contrário, Odisseu não esqueceu Ítaca. Ele lembra e sofre.

Nolan funde os dois motivos. Sua Calipso oferece lótus a Odisseu para amortecer a dor das lembranças, e o uso continuado começa a apagar sua memória e seu senso de identidade. Antes de retomar a jornada, esse Odisseu precisa voltar a lembrar que existe uma casa para a qual deseja retornar. É uma mudança grande em relação a Homero, mas cria uma associação fértil para nossa leitura.

O lótus representa uma retirada relativamente simples: esquecer para não continuar. Calipso, na fusão proposta pelo filme, permite imaginar algo mais sofisticado: aliviar a dor, reconstruir uma vida e habitar outro mundo até que retornar deixe de parecer necessário.

Nesse sentido, Calipso pode representar uma forma mais sofisticada de retirada do ego. Não o ego que precisa vencer o mundo e ocupar seu centro, mas aquele que constrói um lugar de onde já não precisa entrar em confronto com ele.

O ego não precisa sempre sentar-se no trono. Pode também retirar o trono do mundo.

E a escolha de Nolan abre uma pergunta difícil:

e se aquilo que começou como cura terminar produzindo uma identidade que só consegue permanecer inteira enquanto continua afastada daquilo que a feriu?

A ilha das pessoas que compreenderam

Uma ilha assim não precisa ser física. Pode produzir uma geografia social.

Depois de uma experiência profundamente libertadora, é natural procurar pessoas que consigam compreendê-la. O problema começa quando ter vivido determinada experiência passa a funcionar como credencial para perceber a realidade.

“Nós entendemos.”

“Eles ainda estão presos ao ego.”

“Quem critica ainda não chegou lá.”

A comunidade deixa de ajudar a integrar a experiência e começa a protegê-la daquilo que poderia contradizê-la.

Agora o sistema possui uma defesa particularmente eficiente.

A crítica externa não precisa ser examinada. Sua própria existência confirma que o crítico “ainda não entendeu”.

Isso pode acontecer numa comunidade espiritual, num círculo psicodélico, numa escola filosófica ou mesmo entre duas pessoas que passaram a acreditar que construíram juntas um pequeno mundo mais consciente que aquele que existe ao redor.

A experiência original pode ter sido genuína.

O problema é outro.

Uma verdade parcial, vivida com enorme intensidade, começa a reivindicar autoridade sobre a totalidade.

A experiência que desmontou antigas certezas produz uma nova certeza que já não aceita ser desmontada. Nesse ponto, voltamos a um problema que apareceu na segunda parte desta série.

Uma parte começa a falar em nome do todo.

E, uma vez construída essa ilha, não é necessário que a vida dentro dela seja agradável. O sistema pode continuar produzindo sofrimento e ainda assim permanecer fechado àquilo que o obrigaria a mudar.

Quando aceitação vira uma forma de não olhar

É tentador imaginar que só permanecemos onde estamos porque ainda não sofremos o suficiente.

Nem sempre.

Podemos sofrer muito e continuar exatamente na mesma organização. Um conflito pode repetir-se durante anos enquanto cada nova ocorrência é interpretada através da mesma história. Uma pessoa pode viver frustrada e transformar cada frustração em nova prova de que sua interpretação anterior estava correta.

O sofrimento continua.

O que desaparece é sua capacidade de produzir pergunta.

“Eu sou assim.”

“Já me aceitei.”

“As pessoas perturbam minha paz.”

Qualquer uma dessas frases pode ser verdadeira.

Esse é justamente o problema.

Não podemos decidir pela frase.

Precisamos perguntar o que ela está fazendo.

Há uma aceitação que nasce do confronto. Eu vejo algo em mim que preferiria não ver, deixo de gastar energia fingindo que aquilo não existe e paro de precisar me odiar para mudar. Essa aceitação aumenta meu contato com a realidade.

Mas “eu me aceito como sou” também pode significar:

não permitirei que essa questão volte a me perturbar.

Externamente, as duas coisas podem parecer paz.

Internamente, são movimentos opostos.

Uma paz torna o sistema mais permeável ao real.

A outra precisa que certas partes do real permaneçam do lado de fora.

O “deus interior” chamado Self-Calming

É para essa segunda possibilidade que o Quarto Caminho de Gurdjieff oferece um conceito particularmente incômodo: Self-Calming.

Em Beelzebub’s Tales to His Grandson, Gurdjieff, através de Beelzebub, chega a chamar Self-Calming de um “Evil-God” interior. Em uma das primeiras apresentações do conceito, ele o relaciona a uma maneira de aceitar impressões e afirmações sem submetê-las à própria investigação ativa. Em outro momento, liga o mecanismo ao abafamento progressivo da autocrítica diante do remorso de consciência.

Self-Calming, portanto, não significa simplesmente descansar, meditar, abandonar conflitos inúteis ou deixar de se odiar.

Para a leitura que estamos construindo, ele oferece uma imagem para algo mais específico: a capacidade de preservar determinada organização interna evitando que uma contradição produza todas as consequências que poderia produzir.

Isso é muito mais sofisticado que uma simples “zona de conforto”, porque Self-Calming não precisa parecer confortável.

Podemos construir uma identidade em torno de uma ferida e, de modo mais sutil, construir outra em torno de tê-la curado.

Gurdjieff aproxima desse problema outra propriedade que chama de self-love. O termo exige cuidado: aqui ele não equivale automaticamente ao atual “amor próprio”, entendido como dignidade, autocuidado ou capacidade de não se odiar. Em Beelzebub’s Tales, self-love aparece entre consequências anormais como egoísmo, parcialidade e vaidade. Em outro trecho, surge ao lado de self-calming entre fraquezas pessoais capazes de sustentar posições de poder.

Para a leitura que estamos construindo, os dois mecanismos podem cooperar:

Self-Calming reduz a força da contradição. Self-love protege a imagem que construímos de nós mesmos.

Depois de uma experiência libertadora, isso pode se tornar particularmente sutil. Não protegemos apenas nossas antigas feridas. Podemos começar a proteger a identidade de quem acredita tê-las transcendido: “eu me curei”, “eu me libertei”, “finalmente me amo”, “não aceito mais nada que perturbe minha paz”.

Nada disso precisa ser falso. O problema aparece quando preservar a imagem de “quem se libertou” se torna mais importante que continuar encontrando a realidade. Nesse ponto, não apenas neutralizamos a pergunta: começamos a defender a pessoa que acreditamos ter nos tornado contra qualquer coisa que possa colocá-la em dúvida. Se uma comunidade se organiza ao redor da experiência, a confirmação mútua pode sustentar não apenas o estado, mas uma autoimagem coletiva: “somos os que compreenderam”, “somos os que despertaram”.

Mas Gurdjieff complica deliberadamente o termo. Em Views from the Real World, distingue o self-love ordinário de um genuine self-love. As duas formas recebem o mesmo nome e podem parecer semelhantes exteriormente, embora sejam opostas em essência.

Essa distinção impede uma crítica simplista ao amor próprio. Um falso self-love poderia dizer: “Eu me amo, portanto ninguém pode me confrontar.” Um amor próprio mais real talvez dissesse: “Não preciso me destruir para conseguir olhar para mim mesmo.”

Trazendo isso de volta a Ítaca: o falso self-love precisa que Penélope confirme a nova versão de Odisseu. Um amor próprio mais real talvez lhe permita continuar sendo quem se tornou mesmo quando Penélope lhe devolve a memória de quem ele foi.

Podemos até transformar o trabalho sobre nós mesmos numa maneira de impedir que determinada pergunta volte a chegar ao centro.

A dor pode continuar.

Mas agora existe uma organização capaz de absorvê-la.

Às vezes confundimos paz com integração. Construímos uma paz cuja função é não deixar certas perguntas entrarem.

A distinção entre as duas formas de self-love acrescenta então um critério:

Meu amor por mim mesmo me permite suportar mais realidade ou exige que eu construa uma realidade que preserve a imagem que tenho de mim?

O prazer também pode confirmar uma prisão

Outro elemento de Beelzebub’s Tales, o estranho mito do Kundabuffer, acrescenta uma segunda questão. Na cosmologia narrativa de Gurdjieff, o órgão Kundabuffer é implantado para fazer com que os seres humanos percebam a realidade de maneira invertida. Entre suas propriedades está a de favorecer, através das impressões repetidas, a formação de fatores associados a prazer e satisfação.

Podemos chegar a uma conclusão mais modesta que nos basta:

sentir prazer, alívio ou harmonia e perceber corretamente são variáveis diferentes.

Prazer pode acompanhar lucidez ou fantasia, assim como dor pode acompanhar contato com a realidade ou simples sofrimento mecânico.

Nenhum dos dois funciona sozinho como critério.

A pergunta é outra:

o que aconteceu com nossa capacidade de perceber, responder e nos reorganizar?

Em Ogígia não há as mesmas contas a acertar

Há ainda uma diferença entre Ogígia e Ítaca que talvez seja mais profunda que prazer ou conforto.

Em Ogígia, Odisseu está fora da rede de consequências que deixou para trás.

Penélope não está ali.

Telêmaco não está ali.

Laertes não está ali.

A casa não está ali.

Os vinte anos não deixaram de existir, mas as pessoas que viveram esses vinte anos sem Odisseu estão longe. Calipso conhece o homem que chegou à sua ilha.

Penélope terá de reencontrar também o homem que partiu.

Uma relação nova pode nos acolher sem carregar todas as consequências daquilo que aconteceu antes dela. Mesmo que conheça nossa história, não possui a mesma memória incorporada de quem a viveu conosco.

E, se ampliarmos a imagem para uma experiência espiritual de reconciliação, a diferença pode ser ainda maior.

Uma pessoa pode experimentar a sensação de ter sido acolhida por Deus, pela vida ou pelo universo de maneira completa, como se a arquitetura anterior da culpa tivesse perdido seu poder. Não precisamos decidir aqui o estatuto metafísico dessa experiência.

O ponto é que o perdão humano pertence ao tempo.

Alguém pode perdoar e ainda lembrar. Pode amar e continuar ferido. Pode compreender nossas razões e ainda ter sido transformado por nossas escolhas.

Uma experiência interior de absolvição, por mais profunda que seja, não possui autoridade sobre a experiência do outro.

Há uma diferença entre encontrar um lugar onde somos acolhidos apesar do passado e voltar ao lugar onde nossas ações ainda vivem na memória dos outros.

Ítaca não pode ser substituída por uma absolvição

Na parte anterior, vimos que integração não é regressar a uma versão original intacta. Agora aparece a consequência difícil dessa ideia. Se o passado não pode ser restaurado, voltar não significa apagar.

Odisseu não pode recuperar a infância de Telêmaco. Não pode devolver a Penélope os vinte anos de espera. Não pode fazer Laertes deixar de ter envelhecido. Não pode ressuscitar Argos depois do reencontro.

Há coisas que nenhuma jornada interior pode desfazer. Isso torna Ítaca muito menos perfeita que Ogígia.

E talvez muito mais importante.

Ogígia permite que Odisseu continue existindo. Ítaca exige que ele volte a pertencer.

Pertencer significa reencontrar pessoas cuja realidade não está sob nosso controle.

Reparar não é desfazer

Em reuniões conduzidas por Gurdjieff em Paris aparece uma expressão particularmente adequada aqui: “repair the past”, reparar o passado.

No contexto dessas reuniões, Gurdjieff fala de remorso de consciência, responsabilidade e consequências que chegam ao presente, inclusive dentro de uma concepção de linhagem familiar própria de seu ensinamento. O passado não pode literalmente ser refeito, mas aquilo que aconteceu pode continuar exigindo uma resposta no presente.

Reparar, nesse sentido, não é apagar.

É responder agora àquilo que ainda continua através de nós e das relações das quais participamos.

Isso pode envolver compreender, mudar, reconhecer responsabilidade, pedir perdão ou reparar aquilo que ainda pode ser reparado. Mas nenhuma dessas coisas garante que outra pessoa participe imediatamente da nossa narrativa de transformação.

Posso me perdoar. Posso sentir que fui perdoado por algo maior. E ainda assim alguém pode precisar de uma resposta de mim.

Essa pessoa não é obrigada a participar da mesma narrativa de redenção.

Quando nossa paz precisa que o outro concorde

Aqui aparece um teste particularmente simples.

Se preciso que a pessoa que feri reconheça imediatamente minha transformação ou me perdoe para confirmar que mudei, talvez ainda esteja tentando controlar a cena. Se minha serenidade desaba quando alguém recorda aquilo que preferiria deixar no passado, talvez aquilo que chamei de integração ainda dependa de uma fronteira protetora.

Ítaca rompe essa fronteira.

Porque Ítaca contém testemunhas. Ela contém pessoas que conheceram outras versões de nós, que lembram e que não têm obrigação de aceitar imediatamente a história que contamos sobre nossa mudança.

Pessoas capazes de dizer:

“Eu sei que você mudou. Mas isso aconteceu.”

Talvez uma parte importante da formação do mestre seja tornar-se capaz de permanecer presente diante dessa frase.

Experiência não é integração

Agora podemos voltar à experiência de pico.

Uma experiência extraordinária pode revelar possibilidades que antes pareciam inexistentes.

Mas experiência e integração não são a mesma coisa.

A literatura contemporânea sobre integração psicodélica trata a integração como um processo posterior de trabalhar, traduzir e incorporar aspectos da experiência na vida. Também reconhece o risco de spiritual bypassing (algo como um desvio espiritual), quando experiências ou práticas transcendentes passam a funcionar como maneiras de evitar dores, necessidades ou tarefas psicológicas e relacionais ainda não resolvidas.

Podemos então formular uma distinção importante:

experiência de pico é um estado. Integração é uma capacidade.

Uma experiência de dissolução do ego não garante capacidade de admitir que erramos. Uma experiência de amor universal não garante capacidade de amar uma pessoa concreta quando ela nos frustra.

Talvez integração não seja conseguir permanecer no estado extraordinário.

É conseguir trazer alguma coisa dele para uma vida que já não se parece com ele.

Essa é a diferença entre guardar a experiência e construir uma ilha para protegê-la.

Então o que é um choque?

Estamos nos aproximando da próxima parte da série, e aqui precisamos explicar esse termo com cuidado.

Em outro texto, já aproximamos choque e transformação por meio da música e da Lei de Sete. Aqui, o termo precisa ser distinguido de uma glorificação da dor.

Choque não significa trauma nem sofrimento pelo sofrimento. Uma pessoa pode sofrer durante anos sem transformar nada. Outra pode ouvir uma observação numa conversa e descobrir que toda uma organização interior precisa ser revista.

Por isso, para esta leitura, eu usaria uma definição simples:

Choque é aquilo que nossa organização atual não consegue absorver sem precisar se reorganizar.

Se cada experiência nova apenas confirma aquilo que já acreditávamos, o sistema pode continuar funcionando indefinidamente sem verdadeira transformação. Até o sofrimento pode alimentá-lo.

“Viu? Eu sabia.”

“Esse conflito prova que eu estava certo.”

A experiência chegou, mas nada realmente entrou. Foi convertida em combustível para a estrutura anterior.

Talvez o choque comece quando alguma coisa consegue atravessar essa defesa.

A ilha onde nada mais precisa mudar

Calipso oferece a Odisseu algo extraordinário. Ele pode permanecer protegido, viver ao lado de uma deusa, escapar da velhice e evitar parte do sofrimento que ainda o espera.

Em Homero, Odisseu lembra. Sabe que Penélope é mortal, sabe que Ítaca é imperfeita e ainda assim deseja voltar.

Nolan toma o caminho inverso. Seu Odisseu precisa primeiro atravessar o esquecimento produzido pelo lótus e recuperar a própria história para conseguir desejar novamente o retorno.

As duas versões chegam ao mesmo problema por caminhos diferentes:

“Uma vida não é apenas o lugar onde conseguimos sentir paz.”

Também é o lugar onde nossas relações, promessas, ausências, escolhas e consequências continuam existindo.

Ogígia é bela.

Ítaca está ferida.

Ogígia oferece suspensão.

Ítaca exige resposta.

Isso não torna Ogígia falsa.

Nem transforma Ítaca em punição.

Um refúgio pode salvar nossa vida. Uma experiência extraordinária pode abrir uma possibilidade real. Uma comunidade pode ajudar a sustentá-la. Nada disso é o problema. A armadilha começa quando precisamos transformar o refúgio, a experiência ou a comunidade numa explicação para nunca mais retornar àquilo que ainda pode nos contradizer.

Talvez a Ogígia mais perigosa não seja aquela em que escolhemos uma mentira porque temos medo da verdade. Pode ser aquela que nasce depois de termos visto alguma coisa verdadeira.

Uma verdade parcial, vivida com enorme intensidade, pode se transformar num mundo do qual já não sentimos necessidade de sair.

Então talvez reste uma pergunta para qualquer paz que encontramos:

ela me tornou mais capaz de encontrar a realidade ou apenas mais capaz de impedir que certas partes dela me encontrem?

O intervalo mais perigoso talvez não seja aquele em que não conseguimos continuar. Pode ser aquele em que construímos uma razão suficientemente boa para não precisar continuar.

Odisseu olha para o mar.

Do outro lado está um mundo imperfeito que não poderá restaurar.

Ainda assim, é para lá que quer voltar.

E talvez isso nos leve à próxima pergunta.

Se uma jornada não avança simplesmente porque desejamos que avance, se existem momentos em que o movimento perde força, muda de direção ou precisa receber algo que não consegue produzir sozinho, então talvez desenvolvimento nunca tenha acontecido em linha reta.

Na próxima parte:

A jornada não acontece em linha reta.


Como está sendo acompanhar esta série até aqui?

O que fez sentido, provocou discordância ou deixou alguma pergunta? Deixe um recado pela página de contato. Quero ouvir sua leitura e levá-la em consideração nos próximos textos.

Notas de leitura

  • Homero e as duas ilhas. Ogígia, a ilha de Calipso, aparece no livro 5 da Odisseia. Homero descreve o lugar como extraordinariamente belo, mas apresenta Odisseu sofrendo e desejando retornar a Ítaca. O episódio dos Lotófagos, em que o lótus apaga o desejo de voltar, pertence ao livro 9.

  • A adaptação de Christopher Nolan. O filme funde elementos desses dois episódios: Calipso oferece o lótus para amortecer a dor de Odisseu, e o uso continuado afeta suas memórias e seu senso de identidade. Essa mudança em relação ao poema é descrita em “How Christopher Nolan shaped Homer’s ‘Odyssey’ for the screen”, do Los Angeles Times.

  • Gurdjieff, Self-Calming e Kundabuffer. Os dois conceitos pertencem a Beelzebub’s Tales to His Grandson. A expressão “inner Evil-God” associada a Self-Calming aparece no capítulo 44. As propriedades originais atribuídas ao órgão Kundabuffer incluem a percepção invertida da realidade e a formação, pela repetição de impressões, de fatores ligados a prazer e satisfação. O uso feito desses conceitos no artigo é interpretativo.

  • As duas formas de self-love. Em Beelzebub’s Tales, self-love aparece ao lado de self-calming entre fraquezas pessoais associadas à manutenção de posições de poder no capítulo 27 e, no capítulo 43, entre consequências anormais como egoísmo, parcialidade e vaidade. Já em “Of Self-Love”, trecho da fala “Liberation leads to liberation” em Views from the Real World (dados da edição), Gurdjieff contrapõe o self-love ordinário a um genuine self-love: exteriormente semelhantes, mas opostos em essência. O desenvolvimento psicológico proposto no artigo é interpretativo.

  • “Repair the past”. A expressão aparece em uma reunião conduzida por Gurdjieff em Paris, em 1943, num contexto que envolve remorso de consciência, consequências e responsabilidades de linhagem. Neste artigo, recorto apenas uma implicação operacional dessa formulação: acontecimentos irreversíveis podem continuar exigindo respostas no presente. Reparar não significa desfazer.

  • Experiências psicodélicas e flexibilidade psicológica. Um estudo observacional com 985 participantes encontrou associações entre efeitos agudos relatados, mudanças percebidas em flexibilidade psicológica e reduções subjetivas de depressão e ansiedade. Por seu desenho transversal, o estudo não demonstra causalidade: Davis et al., 2020.

  • Integração e spiritual bypassing. Bathje, Majeski e Kudowor apresentam uma análise conceitual da integração como processo de examinar, trabalhar e incorporar a experiência à vida: Psychedelic integration: An analysis of the concept and its practice. O risco de usar experiências transcendentes para evitar necessidades, dores e tarefas não resolvidas também é discutido no modelo clínico de redução de danos e integração psicodélica.