Este texto contém spoilers da Odisseia e da adaptação de Christopher Nolan.

Na parte anterior, vimos como uma abertura real pode se transformar numa ilha quando preservar a experiência se torna mais importante que continuar encontrando a realidade. Para sair de Ogígia, porém, Odisseu ainda precisa reencontrar direção.

Quanto tempo Odisseu ficou longe de casa?

A resposta mais conhecida é vinte anos. Dez foram consumidos pela Guerra de Troia. Depois da queda da cidade, seriam necessários outros dez para que ele finalmente retornasse a Ítaca. Mas essa segunda década tem uma distribuição muito diferente da viagem contínua que costumamos imaginar quando pensamos na Odisseia. Aproximadamente três anos concentram quase todas as grandes errâncias, encontros e perdas do retorno, incluindo um ano inteiro com Circe. Depois vêm sete anos em Ogígia, com Calipso, e apenas o trecho final da travessia até Ítaca. Homero dedicou, portanto, uma quantidade desproporcional de acontecimentos a poucos anos e uma quantidade desproporcional de tempo a longos períodos de permanência. Calipso sozinha ocupa sete dos dez anos do retorno.

Tempo aproximado Campo dominante
10 anos Troia, guerra, estratégia e forças externas
cerca de 3 anos errância, consequências, perdas e encontros
7 anos Ogígia, suspensão, interiorização e permanência
trecho final jangada, nova travessia, ajuda e retorno

Essa distribuição já muda um pouco a imagem. A Odisseia que guardamos na memória é feita de monstros, tempestades, ilhas e aventuras sucessivas. Cronologicamente, porém, grande parte da história de Odisseu é composta por duas longas permanências separadas por poucos anos de enorme instabilidade: dez anos dentro de uma guerra e sete anos numa ilha.

Talvez a jornada nunca tenha sido uma linha.

Uma história que começa quase no final

Homero também não conta essa história na ordem em que ela aconteceu. Quando a Odisseia começa, Troia já pertence ao passado e Odisseu está no último ano de sua ausência. Nos quatro primeiros cantos acompanhamos sobretudo Telêmaco, Penélope e a casa onde o mestre não voltou. O próprio Odisseu só aparece diretamente no canto 5, já em Ogígia.

Cíclope, Éolo, Circe, o mundo dos mortos, as sereias, Cila e Caríbdis surgem depois, quando Odisseu reconstrói diante dos Feácios aquilo que viveu antes de chegar a Calipso. Algumas das cenas mais conhecidas do poema chegam ao leitor como memória. Nolan reconheceu nessa estrutura algo muito próximo de seu próprio cinema e chamou a Odisseia de uma espécie de narrativa não linear original. Em seu filme, lembrança, trauma e presente atravessam ainda mais intensamente uns aos outros.

Mas a não linearidade mais interessante talvez não esteja na técnica narrativa.

Está no próprio homem que atravessa a história.

Odisseu não parece percorrer uma sequência em que cada experiência o torna um pouco mais sábio até que, finalmente pronto, ele chega a Ítaca. Algumas capacidades amadurecem enquanto outras permanecem quase intactas. Ele avança e retrocede, compreende e repete, recebe ajuda e a perde, chega perto e volta a se afastar.

A forma da viagem se parece muito mais com uma vida do que com uma escada.

Dez anos em que a vida já tinha uma direção

Antes do mar existe Troia.

Durante dez anos, Odisseu vive dentro de um campo extremamente exigente, mas também bastante organizado. Há uma guerra, um inimigo, aliados, hierarquias, deveres e uma ideia reconhecível de vitória. O campo é brutal, porém oferece direção.

Isso não torna Odisseu passivo. Troia exige coragem, estratégia, inteligência, adaptação e liderança. É ali que sua astúcia chega ao extremo representado pelo Cavalo de Troia. Mas existe uma diferença entre desenvolver enorme competência para responder a um campo e perceber as forças que organizam nossa participação nesse campo.

Na linguagem sistematizada por Ouspensky, poderíamos aproximar esse mundo das chamadas influências A, aquelas produzidas pela própria vida: sobrevivência, dinheiro, família, posição, poder, sucesso, competição, guerra e todas as demandas que mantêm a existência ordinária em movimento. A expressão não torna essas coisas moralmente ruins. Elas simplesmente pertencem ao fluxo da vida e exercem continuamente força sobre nós.

Quase todos conhecemos algo desse período de Troia. Há fases em que a própria vida decide boa parte da agenda. Estudar. Construir carreira. Sustentar uma família. Ganhar dinheiro. Conseguir posição. Entregar projetos. Resolver problemas. Defender alguma coisa. Sobreviver.

Podemos passar muitos anos assim e desenvolver capacidades extraordinárias. A questão aparece quando percebemos que ser muito competente para responder às exigências da vida não é necessariamente o mesmo que compreender as forças que nos fazem responder.

Troia dava a Odisseu uma guerra.

Quando a guerra termina, o mar não lhe oferece a mesma clareza.

Vencer também produz consequências

Nolan torna particularmente visível outra dimensão dessa passagem. Seu Odisseu não carrega apenas a lembrança de ter vencido Troia. O Cavalo retorna associado ao massacre que sua estratégia ajudou a tornar possível e, principalmente, a Sinon, o jovem grego utilizado no engano e sacrificado no processo. O filme acentua uma culpa que não ocupa o mesmo lugar no Odisseu homérico.

Isso produz uma inversão interessante. A inteligência que resolveu o problema exterior começa a produzir um problema interior.

Odisseu abriu os portões.

Depois precisa viver com aquilo que entrou por eles.

Há capacidades que funcionam perfeitamente dentro do campo que as formou e mostram suas limitações apenas quando o campo desaparece. Estratégia pode vencer uma guerra sem ensinar o que fazer com a memória da guerra. Eficiência pode construir uma carreira sem responder para que aquela carreira deveria existir. Força pode atravessar uma crise sem saber o que fazer quando já não existe ninguém contra quem lutar.

A vitória termina.

Suas consequências continuam.

Poucos anos em que quase tudo muda

Depois de Troia, a estabilidade desaparece. Odisseu enfrenta os Cícones, encontra os Lotófagos, entra na caverna de Polifemo, chega a Éolo, aproxima-se de Ítaca e é lançado novamente para longe. Os Lestrigões destroem quase toda a frota. Circe o recebe por um ano. Vem a descida ao mundo dos mortos, depois as sereias, Cila e Caríbdis, até que a transgressão envolvendo o gado de Hélio termina com a destruição do último navio e a morte dos companheiros restantes.

Seria fácil organizar tudo isso retrospectivamente como um currículo de iniciação: primeiro Odisseu aprende uma coisa, depois outra, depois outra. O poema é menos confortável.

No episódio do Ciclope, por exemplo, sua inteligência salva os sobreviventes. A ideia de chamar-se “Ninguém”, cegar Polifemo e escapar agarrado sob os carneiros é brilhante. Mas, quando já está fora de perigo, Odisseu sente necessidade de declarar o próprio nome. Polifemo agora sabe quem o feriu e pode pedir ao pai, Poseidon, que amaldiçoe seu retorno.

A mesma personalidade produz a saída e o problema seguinte.

Isso talvez descreva melhor desenvolvimento do que uma linha ascendente. Podemos compreender alguma coisa e continuar presos a outra. Aprender a colocar limites sem aprender ainda a não humilhar. Tornar-nos mais autônomos sem perceber o orgulho que nasceu junto. Desenvolver inteligência suficiente para escapar de uma caverna e continuar precisando que o Ciclope saiba quem o derrotou.

A capacidade amadurece antes do conjunto.

Quando Odisseu dorme

Éolo oferece uma imagem ainda mais direta.

O deus dos ventos recebe Odisseu e, quando ele parte, entrega-lhe um odre onde prende os ventos capazes de desviá-lo. Apenas o vento favorável permanece livre para conduzir o navio a Ítaca.

Durante nove dias e nove noites a viagem segue. No décimo dia, a terra natal aparece. Homero diz que estão tão perto que já conseguem ver as fogueiras na costa.

Então Odisseu adormece.

Ele está exausto porque havia mantido pessoalmente o controle da vela durante toda a travessia, sem entregá-lo a nenhum companheiro. Enquanto dorme, os homens começam a conversar sobre o odre. Imaginam que Éolo deu a Odisseu ouro e prata que ele pretende guardar para si. Abrem o saco.

Os ventos escapam e o navio que já enxergava Ítaca é lançado novamente para longe.

A cena quase dispensa símbolo porque a ação já o contém. Odisseu conhece o destino, possui os meios para chegar e consegue finalmente ver Ítaca. Mesmo assim, aquilo que mantinha a direção deixa de atuar por algum tempo e outras forças presentes no barco assumem a ação.

O sono toca diretamente uma linguagem central do Quarto Caminho: o estado de vigília que ainda carrega muito do sono psicológico. Não como condenação do descanso, mas como imagem de uma consciência que não permanece disponível de maneira contínua. O homem pode saber o que quer e, ainda assim, “dormir” diante de impulsos, identificações, ressentimentos ou fantasias capazes de mudar o curso.

Mas Homero acrescenta algo que torna a cena ainda melhor: Odisseu dorme porque tentou sustentar a direção sozinho durante nove dias.

Isso muda o problema.

A falha não é apenas ter perdido presença. Existe também uma organização frágil, dependente da vigilância permanente de uma única função. Quando o comandante cai de exaustão, aparecem inveja, desconfiança e ressentimento que já estavam no barco.

O sono não os criou.

Apenas permitiu que agissem.

Talvez uma equipe que só funcione quando o líder permanece acordado ainda não tenha aprendido a funcionar. Talvez uma vida que só mantém direção sob enorme esforço voluntário continue dependendo demais desse esforço. E talvez a questão mais interessante não seja como nunca dormir, mas o que assume o leme quando dormimos.

Quase chegar também pode fazer parte de se perder

Éolo introduz uma diferença essencial entre movimento e direção.

Podemos investir muitos anos numa profissão e terminar longe daquilo que originalmente nos levou até ela. Podemos desejar intimidade e construir pouco a pouco uma relação organizada para evitar vulnerabilidade. Podemos buscar liberdade e acabar defendendo ferozmente uma nova identidade que se chama “livre”.

A Parte 5 terminou justamente nesse problema. Uma experiência genuína de abertura pode, com o tempo, produzir uma ilha construída para preservar a experiência. Self-Calming pode neutralizar aquilo que nos contradiz. Self-Love pode começar a proteger a imagem da pessoa que acreditamos ter nos tornado.

Nada disso exige que paremos de nos mover.

Às vezes continuamos com enorme energia.

A palavra permanece: liberdade, amor, desenvolvimento, espiritualidade, cuidado.

A direção mudou.

O navio continua navegando enquanto Ítaca fica cada vez mais longe.

A descida muda a qualidade da viagem

Depois de tantas tentativas de resolver o mundo por meio da ação, Circe envia Odisseu para um encontro de outra natureza. Ele precisa consultar Tirésias, o profeta cego de Tebas, no mundo dos mortos, porque é Tirésias quem poderá orientá-lo sobre o que ainda encontrará no caminho.

Mas Odisseu vê outra sombra antes de poder falar com o profeta.

É Anticleia, sua mãe.

Ele havia partido para Troia deixando-a viva. Só naquele momento descobre que ela morreu durante sua ausência. Precisa primeiro ouvir Tirésias e, depois, permite que Anticleia se aproxime. Ela lhe fala de Penélope, de Telêmaco e de Laertes. Conta também que não morreu de doença ou pelas flechas de Ártemis, mas consumida pela saudade do filho.

Odisseu tenta abraçá-la.

Três vezes.

Três vezes seus braços atravessam a sombra.

Há uma mudança profunda nessa parte da viagem. Tirésias fala sobre o caminho que ainda existe. Anticleia devolve a Odisseu aquilo que aconteceu enquanto ele estava fora.

O futuro e a consequência aparecem juntos.

Há coisas que a inteligência estratégica não pode mais resolver. Ele não pode voltar vinte anos e estar presente na morte da mãe. Não pode vencer esse acontecimento. Não pode enganá-lo, lutar contra ele ou encontrar um mecanismo que o faça deixar de ter acontecido.

Pode apenas encontrá-lo.

Nolan escolhe outro centro emocional para essa descida. Anticleia desaparece de seu filme, assim como Aquiles e vários outros mortos importantes do poema. O Hades de Nolan se concentra muito mais nas consequências da guerra, sobretudo em Sinon, que confronta Odisseu com o engano do Cavalo de Troia; Agamêmnon também está entre os fantasmas preservados pela adaptação.

Homero faz Odisseu encontrar uma mãe que morreu enquanto ele estava ausente.

Nolan faz seu Odisseu encontrar de forma mais direta aquilo que sua vitória deixou morto para trás.

Em ambos os casos, algo muda na qualidade da viagem. O homem acostumado a agir precisa permanecer diante de consequências que já não podem ser convertidas imediatamente em ação.

Até ficar sozinho

A viagem continua e os avisos se acumulam. No episódio do gado de Hélio, os companheiros atravessam um limite sobre o qual haviam sido explicitamente advertidos. O último navio é destruído e todos morrem, exceto Odisseu.

Ele chega sozinho a Ogígia.

Não há necessidade de transformar isso numa moral simples sobre um líder que “perdeu sua equipe”. O poema mistura continuamente decisão pessoal, escolhas dos companheiros, deuses, desejo, circunstância e forças que ninguém controla inteiramente.

Talvez essa mistura seja justamente uma das coisas que Odisseu precisa aprender a suportar.

Maturidade não é descobrir que tudo foi nossa culpa. Também não é proteger-se com a ideia oposta de que nada nos diz respeito.

Há uma faixa muito mais difícil entre essas duas posições, onde reconhecemos responsabilidade sem imaginar controle absoluto e reconhecemos contingência sem usá-la para desaparecer das consequências.

Odisseu chega a Calipso sem os homens que saíram com ele de Troia.

Não porque uma única causa explique tudo.

Mas porque o campo inteiro mudou.

Sete anos quase sem viajar

Depois de poucos anos saturados de acontecimentos, a cronologia quase congela.

Odisseu permanece sete anos em Ogígia.

A maior parte da década do retorno acontece enquanto ele praticamente não se desloca. Em Homero, continua desejando Ítaca e passa os dias olhando para o mar. No filme de Nolan, Calipso lhe oferece o lótus, e a suspensão começa também a dissolver memória e identidade, de modo que voltar exige antes recuperar o desejo de voltar.

A Parte 5 explorou o risco dessa ilha, especialmente quando uma experiência de liberdade, cura ou reconciliação começa a produzir uma realidade separada, protegida das contradições do mundo.

Agora a cronologia mostra outra coisa.

Parada e perda de direção não são necessariamente a mesma coisa.

Homero oferece um Odisseu quase imóvel cuja direção permanece viva.

Éolo havia mostrado o contrário: um navio em pleno movimento indo para longe do destino.

Isso complica bastante nossa imagem habitual de desenvolvimento. Movimento não garante progresso. Imobilidade não prova estagnação. Uma crise pode mudar tudo sem desenvolver quase nada. Um longo período de aparente silêncio pode reorganizar profundamente alguma coisa.

A pergunta deixa de ser “quanto estou andando?” e começa a se aproximar de “o que está orientando esse movimento?”.

Entre Troia e Ogígia

Troia e Ogígia começam então a formar uma polaridade.

Em Troia, o mundo exterior fornece quase toda a estrutura. Função, inimigo, urgência, pertencimento, reconhecimento e critério de vitória. Odisseu é intensamente convocado pela vida.

Em Ogígia, grande parte dessa pressão desaparece. O campo externo se reduz. Surge o risco oposto, já explorado na Parte 5, de uma interiorização que encontre tanta coerência em si mesma que o mundo passe a parecer apenas perturbação.

O Quarto Caminho não se organiza pela escolha definitiva entre esses polos. Sua particularidade sempre esteve justamente no trabalho dentro da vida ordinária, em vez da retirada permanente para um mosteiro, deserto ou escola especializada. A questão é participar da vida sem ser inteiramente carregado por suas forças e desenvolver interioridade sem transformá-la numa ilha.

Odisseu precisa sair de Ogígia.

Mas não volta a sair como saiu de Troia.

Não há exército.

Não há frota.

Não há companheiros.

Há uma jangada.

Uma jangada não é um navio

A saída de Ogígia é uma das cenas em que Homero demora deliberadamente no trabalho concreto.

Calipso oferece ferramentas e mostra onde estão as árvores. Fornece tecido para a vela, comida, água e um vento favorável. Odisseu corta as árvores, aplaina a madeira, perfura, encaixa, constrói o convés, ergue o mastro, prepara o leme e a vela. Quatro dias depois, a jangada está pronta.

Há uma combinação muito bonita nessa cena.

Odisseu precisa construir.

Mas não cria sozinho as condições da partida.

Atena levou a questão aos deuses. Zeus enviou Hermes. Hermes chegou a Calipso. Calipso forneceu materiais, instrumentos e orientação. Odisseu transformou essas condições numa estrutura capaz de voltar ao mar.

Talvez alguns movimentos de desenvolvimento tenham exatamente essa forma. Há trabalho que ninguém pode fazer por nós e existem condições que não conseguimos produzir sozinhos. Uma conversa, uma pessoa, uma crise, um ensinamento, uma oportunidade ou alguma circunstância externa podem aparecer como elementos necessários justamente quando o esforço anterior chegou ao limite.

A ajuda não substitui a construção.

A construção também não torna desnecessária a ajuda.

Estruturas provisórias

A jangada possui outra qualidade importante: ela não é uma nova casa.

Serve para sair de Ogígia.

Não foi construída para que Odisseu encontre uma forma melhor de permanecer na ilha. Tampouco pretende substituir Ítaca. É uma estrutura provisória para uma passagem.

Algumas coisas que encontramos no desenvolvimento talvez funcionem assim. Uma terapia pode organizar um período de ruptura. Uma filosofia pode oferecer linguagem para experiências antes incompreensíveis. Uma comunidade pode sustentar uma transformação ainda frágil. Uma prática pode fornecer disciplina quando não existe nenhuma.

Nada disso precisa ser falso ou descartável por ter função provisória.

O problema começa quando exigimos que aquilo que serviu para atravessar uma etapa tenha resposta para todas as etapas seguintes.

A Parte 5 perguntava o que acontece quando tentamos morar dentro de uma experiência.

A jangada introduz outra possibilidade: trazer da experiência algo suficientemente concreto para voltar ao mundo.

E então Homero torna a imagem ainda mais difícil.

Porque a jangada também será perdida.

Quando aquilo que nos salvou deixa de servir

Depois de dezessete dias no mar, Odisseu finalmente vê a terra dos Feácios.

Poseidon encontra-o e desencadeia a tempestade. Uma onda atinge a jangada, o mastro quebra e Odisseu é lançado ao mar. Ele consegue voltar para a estrutura e tenta permanecer junto dela.

É compreensível.

Ele a construiu.

Ela o tirou de Ogígia.

Ela o manteve vivo durante dias.

Então Leucoteia surge e lhe oferece outra orientação: abandonar a jangada e nadar. Odisseu desconfia. Tenta conservar sua construção enquanto consegue. Só depois, quando a destruição já não deixa alternativa, entra no mar. Atena interfere nos ventos, e a travessia passa novamente a depender de uma combinação entre seu esforço e forças que não controla.

Existe algo profundamente humano nessa resistência.

Aquilo que nos salvou numa etapa tende a adquirir autoridade.

Uma defesa pode ter sido necessária.

Uma identidade pode ter permitido reconstruir-se depois de uma ruptura.

Uma comunidade pode ter oferecido pertencimento quando tudo se desfez.

Uma teoria pode ter finalmente dado nome ao caos.

Nenhuma dessas coisas precisa ter sido um erro para que deixe de ser suficiente.

A jangada não fracassou porque não chegou intacta à costa.

Ela cumpriu uma função até o ponto em que outra forma de travessia se tornou necessária.

Às vezes perder uma estrutura não significa voltar para trás.

Significa descobrir até onde aquela estrutura podia levar.

Quando a direção muda sem que o nome mude

É nesse ponto que a Lei de Sete encontra uma correspondência particularmente fértil com a viagem.

Na formulação transmitida por Ouspensky, Gurdjieff descreve processos como sujeitos a intervalos em que a força que sustentava determinada direção sofre uma redução. Sem um novo impulso adequado, a linha não simplesmente para. Pode mudar gradualmente de curso e continuar desenvolvendo-se numa direção diferente, até mesmo oposta à intenção inicial, enquanto conserva o antigo nome.

Essa imagem ajuda a compreender fenômenos muito ordinários.

Um movimento começa buscando liberdade e termina defendendo dogmas.

Uma organização nasce para servir pessoas e, anos depois, as pessoas existem para servir à organização.

Uma prática criada para aumentar presença torna-se ritual mecânico.

Um processo de cura passa a proteger a identidade de quem se considera curado.

Algo continua acontecendo.

É justamente por isso que o desvio pode passar despercebido.

A Lei de Sete não interessa aqui como uma explicação científica da viagem de Odisseu. Seu valor para esta investigação está em uma pergunta muito concreta: como perceber que o movimento continua, mas a direção mudou?

O episódio de Éolo já havia mostrado isso sem teoria.

Ítaca permanece sendo chamada de destino.

O navio continua navegando.

Mas os ventos o levam para longe.

O sono visto outra vez

Por isso o sono de Odisseu ganha outra camada quando voltamos a ele.

No começo, parecia apenas perda de presença.

Agora vemos também um intervalo.

Há uma força inicial, uma direção estabelecida e um enorme esforço sustentando o percurso. Perto da chegada, essa força já não pode continuar funcionando da mesma maneira. Odisseu dorme.

E aquilo que não havia sido integrado entra no processo.

A cena também impede uma leitura heroica demais do trabalho consciente. Se presença significasse simplesmente aumentar cada vez mais o controle, o próprio comportamento de Odisseu antes de dormir já seria o modelo perfeito. Ele não larga a vela durante nove dias.

E termina exausto.

Talvez coalescência envolva algo diferente: uma organização em que a direção deixe de depender exclusivamente da vigília extraordinária de uma única parte.

É fácil estar presente durante um retiro.

Ou numa crise.

Ou numa experiência de pico.

Ou durante uma conversa decisiva.

Outra coisa é formar uma organização capaz de continuar relativamente orientada numa segunda-feira comum, quando ninguém está observando, quando a emoção diminuiu e quando o comandante precisa dormir.

Nem todo choque desenvolve

Na Parte 5 chegamos a uma definição provisória de choque: aquilo que nossa organização atual não consegue absorver sem precisar se reorganizar.

A Lei de Sete acrescenta um problema.

Reorganização não significa necessariamente desenvolvimento.

Uma crise pode produzir uma defesa melhor.

Uma humilhação pode cristalizar ressentimento.

Uma experiência espiritual pode aumentar inflação e certeza.

Uma terapia pode fornecer uma narrativa muito sofisticada para continuar repetindo a mesma relação com a realidade.

O sistema mudou.

Talvez tenha apenas aprendido a proteger-se melhor.

Isso nos leva de volta à questão levantada no final da Parte 5 pelo Self-Calming e pelo Self-Love. Se uma organização consegue absorver quase tudo de modo a confirmar a própria imagem, pode tornar-se muito estável e, ainda assim, cada vez menos permeável ao real.

Então não basta perguntar se houve mudança.

Nem mesmo se houve maior coalescência.

Precisamos perguntar em torno de quê essa coalescência está acontecendo.

Se não existe uma linha reta, existe um norte?

“Desenvolvimento não é linear” tornou-se uma frase bastante confortável.

Ela contém algo importante. Uma regressão não apaga necessariamente tudo o que foi formado. Uma crise pode fazer reaparecer padrões que pareciam superados. Períodos de aparente parada podem fazer parte de processos mais longos.

Mas, se qualquer direção puder ser chamada de desenvolvimento apenas porque o caminho não é linear, a ideia perde capacidade de distinguir alguma coisa.

Calipso já mostrou que estabilidade não basta.

Éolo mostra que movimento não basta.

A jangada mostra que uma estrutura útil não precisa ser permanente.

A Lei de Sete acrescenta que até processos iniciados na direção correta podem se desviar preservando sua antiga narrativa.

Então talvez a pergunta não seja qual é a linha reta.

Talvez seja qual é a bússola.

Razão Objetiva e Consciência Objetiva

Gurdjieff utiliza em Beelzebub’s Tales a expressão Objective Reason, Razão Objetiva, e fala de sua aquisição em graus. Na tradição de Orage, essa razão não corresponde simplesmente ao aumento da capacidade intelectual. Ela se relaciona a um desenvolvimento do ser no qual o conhecimento deixa de ser apenas informação externa e se aproxima de compreensão incorporada.

Ao lado dela existe outro conceito central, Objective Conscience, Consciência Objetiva. Orage a relacionava ao sentido de being-duty, uma percepção de dever e relação que ultrapassa a conveniência subjetiva imediata. Outros comentadores da tradição a descrevem como uma capacidade de perceber simultaneamente sentimentos e contradições que, no estado ordinário, tendem a aparecer separadamente.

Talvez essas duas ideias ajudem a responder à pergunta sobre direção.

Não como novo estado final a ser conquistado.

Nem como outra identidade com a qual possamos nos identificar.

Mas como uma crescente capacidade de receber realidade sem precisar deformá-la para preservar a parte que está no centro.

Consciência Objetiva, na formulação operacional que temos usado nesta série, amplia a percepção de relações, contradições e consequências para além do interesse imediato.

Razão Objetiva acrescentaria capacidade de discriminar e compreender essas relações sem reduzir tudo ao funcionamento associativo habitual.

As duas juntas ajudam a evitar um erro que Troia já havia mostrado.

Odisseu sempre foi inteligente.

O problema nunca foi simplesmente torná-lo mais inteligente.

Uma razão desconectada do restante do ser pode continuar produzindo cavalos de Troia extraordinários.

A questão é formar uma organização em que inteligência, sentimento, corpo, memória, responsabilidade e capacidade de ação consigam participar de uma relação menos fragmentada com aquilo que existe.

É aí que a coalescência começa a ganhar direção.

Talvez desenvolvimento seja melhorar a bússola

Vista desse ponto, a viagem inteira muda.

Troia mostra um homem extremamente capaz movendo-se dentro de um campo cujas finalidades já estavam dadas.

Os poucos anos seguintes desmontam essa estabilidade. A mesma inteligência que o salva também cria problemas. Os companheiros agem por conta própria. O acaso e os deuses intervêm. A mãe morre enquanto ele está longe. Sua tripulação desaparece. Odisseu termina sozinho.

Ogígia suspende o movimento e introduz o risco de transformar pausa em mundo.

A jangada devolve-o ao mar através de uma mistura de trabalho próprio e ajuda exterior.

Depois a própria jangada precisa ser abandonada.

Nada disso se parece com uma escada.

Mas também não parece puro acaso.

Há uma direção que Odisseu perde e reencontra repetidamente.

Ítaca permanece.

Talvez desenvolvimento seja algo semelhante. Não uma estrada cada vez mais lisa, nem a capacidade de preservar indefinidamente um estado considerado superior, mas o aumento progressivo da capacidade de perceber quando nos desviamos, reconhecer aquilo que assumiu o leme, receber aquilo que falta num intervalo e abandonar formas que já cumpriram sua função.

Uma bússola é uma imagem melhor que uma estrada.

O mar não oferece uma faixa desenhada até Ítaca.

Há vento, corrente, tempestade, sono, ajuda, desvio e perda.

Ainda assim, direção não deixa de existir.

E talvez o que chamamos de consciência tenha alguma relação com tornar-se progressivamente mais capaz de encontrá-la outra vez.

Odisseu levou vinte anos para voltar.

Durante dez, uma guerra praticamente lhe dizia para onde ir.

Depois, durante poucos anos, quase tudo que possuía foi sendo desmontado.

Em seguida, passou sete anos praticamente parado.

Quando finalmente saiu, partiu numa jangada construída por suas próprias mãos com ferramentas e condições que recebeu de fora.

E até essa jangada precisou desaparecer antes que chegasse à costa.

A jornada não aconteceu em linha reta.

Talvez nenhuma jornada de formação aconteça.

A pergunta nunca foi como eliminar todos os desvios.

Talvez seja como formar alguma coisa em nós capaz de perceber, um pouco antes, quando Ítaca deixou de estar à frente.

Na próxima parte:

Depois de voltar, é preciso saber parar.


E você: em que área da sua vida o movimento continuou, mas a direção mudou?

Como está sendo acompanhar a série até aqui? O que fez sentido, provocou discordância ou deixou alguma pergunta? Deixe um recado pela página de contato. Quero ouvir sua leitura e levá-la em consideração nos próximos textos.

Notas de leitura

  • Cronologia e tempo narrativo. A ausência de Odisseu dura aproximadamente vinte anos: dez associados à Guerra de Troia e dez ao retorno. A divisão usada no artigo — dez anos de guerra, cerca de três anos concentrando as grandes errâncias e sete anos com Calipso — é uma aproximação destinada a tornar visível a distribuição desigual do tempo. O período em Ogígia aparece no canto 5 da Odisseia; as errâncias são reconstruídas sobretudo nos cantos 9, 10, 11 e 12.

  • Éolo e o sono de Odisseu. No canto 10, Odisseu adormece quando Ítaca já está visível. Homero especifica que ele próprio havia mantido continuamente o comando da vela por nove dias e que o sono veio pela exaustão. Os companheiros, acreditando que o odre de Éolo continha riquezas, abrem-no e libertam os ventos que os levam novamente para longe.

  • Tirésias e Anticleia. No canto 11, Odisseu desce ao mundo dos mortos para consultar Tirésias. Lá encontra Anticleia, sua mãe, cuja morte desconhecia. Depois da consulta ao profeta, ela lhe fala de Penélope, Telêmaco e Laertes e atribui a própria morte à saudade do filho. Odisseu tenta abraçá-la três vezes e não consegue.

  • A jangada. No canto 5, Calipso fornece a Odisseu ferramentas, materiais, provisões e orientação para a construção. Depois que Poseidon destrói a jangada, Leucoteia o aconselha a abandoná-la e nadar, enquanto Atena posteriormente intervém nos ventos.

  • A adaptação de Christopher Nolan. Nolan comentou a estrutura radicalmente não linear do poema em entrevista ao Guardian. A ênfase do filme na culpa de Odisseu, nos mortos da guerra e em Agamêmnon aparece também na resenha da Associated Press; a reelaboração de Sinon como contraponto moral ao Cavalo de Troia é discutida em “Odysseus’s Confession”. A comparação com Homero feita no artigo é interpretativa.

  • Influências A e Lei de Sete. Os dois conceitos aparecem em In Search of the Miraculous, de P. D. Ouspensky, disponível em texto integral. Na formulação da Lei de Sete ou Lei das Oitavas, os intervalos podem retardar ou mudar a direção de um processo, exigindo um novo impulso para preservar o curso original; há uma síntese do conceito no Ouspensky Today. O uso feito aqui é heurístico e não propõe uma correspondência histórica entre Homero e Gurdjieff.

  • Razão Objetiva e Consciência Objetiva. Objective Reason pertence à linguagem de Beelzebub’s Tales to His Grandson. Nas exposições de A. R. Orage, Objective Conscience é associada ao sentido de being-duty, como registra “Good and Evil: Part 1”. Neste artigo, os conceitos servem como referências para a direção proposta à coalescência: ampliar a capacidade de perceber, discriminar e responder às relações e consequências da realidade sem depender inteiramente da conveniência subjetiva da parte que ocupa o centro.